
Disponibilizado em todas as plataformas digitais no início de novembro, Lux (ou luz em latim) é o mais novo projeto da cantora catalã Rosalía. Atribuído cinco estrelas pela Rolling Stone Brasil, o álbum explora em suas letras, estética e sonoridade etérea o divino e a mística feminina.
Para abordar a temática, a artista buscou a ajuda de artistas como Björk, que colaborou na faixa “Berghain“, e da Orquestra Sinfônica de Londres, que, sob a regência de Daniel Bjarnasn, confere uma qualidade sacra ao álbum. Além dos colaboradores musicistas, Rosalía passou três anos pesquisando sobre algumas mulheres divinas ao redor do mundo, que a auxiliaram como inspirações principais para Lux. Conheça-as:
1. Santa Rosa de Lima (1586- 1617)
A santa peruana nasceu em Lima, em 1586, décima entre treze filhos de uma família nobre. “A sua ama, Mariana, de origem indígena, deu-lhe o nome de Rosa, pela incrível beleza que a caracterizava. Depois, este nome foi confirmado na Crisma e quando, aos vinte e três anos, recebeu o hábito religioso da Ordem Terceira Dominicana”, afirma o perfil oficial da santa no site do Vaticano. “Seu modelo de vida foi Santa Catarina de Sena.”
Durante uma coletiva de imprensa no México, Rosalía afirmou que a padroeira do Peru e da América latina foi uma de suas inspirações principais para o álbum. “Há inspiração em Santa Rosa de Lima, em Santa Teresa… a lista é longa”, afirmou sobre as referências latinas.
Santa Rosa de Lima é invocada no catolicismo como protetora dos jardineiros e floricultores, além de oferecer proteção em caso de feridas ou brigas familiares. Ela foi também a primeira mulher a ser canonizada no continente americano. No álbum, a referência direta à santa vêm na canção “Reliquia“, já que os restos mortais de Rosa foram distribuídos como relíquias ao redor do mundo.
Além do título e temática da música, a referência também é feita em um dos versos: Rosalía canta “Y en la ciudad de cristal/ Fue que me trasquilé/ Pero el pelo vuelve a crecer/La pureza también/La pureza está en mí” (em tradução livre, E na cidade de vidro/ Foi onde raspei meus cabelos/Mas o cabelo cresce de novo/ E a pureza também/ A pureza está em mim). A padroeira do Peru ficou muito conhecida por praticar penitências religiosas em sinal de fé e castidade, entre elas cortar sozinha seu cabelo.
2. Santa Clara de Assis (1194- 1253)
Nascida em uma família nobre italiana, Clara de Assis chocou sua época ao fugir de casa aos 18 anos para seguir São Francisco e dedicar sua vida à pobreza radical. Ela fundou a Ordem das Clarissas e foi a primeira mulher a escrever uma regra de vida religiosa aprovada pela Igreja. Sua ordem, conhecida também como as “damas pobres”, dedicou-se à vida contemplativa e à oração, rejeitando qualquer propriedade material.
A história de Clara de Assis inspira diretamente a música “Mio Cristo Piange Diamanti“, uma das faixas mais operísticas do álbum, cantada inteiramente em italiano. Disponível nos lançamentos de Lux, a canção explora a relação espiritual entre Santa Clara e São Francisco de Assis, que era uma conexão platônica intensa de afeto e admiração.
3. Ryōnen Gensō (1646-1711)
Talvez a história mais impactante e desconhecida entre todas as inspirações de Lux seja a de Ryōnen Gensō, uma monja japonesa do século XVII que protagoniza um dos atos mais radicais de devoção já registrados. Nascida em uma família nobre de Kyoto, descendente do lendário guerreiro Takeda Shingen, Ryōnen foi conhecida na corte imperial por sua beleza e inteligência excepcionais.
Quando a imperatriz que ela servia faleceu, Ryōnen sentiu profundamente a impermanência do mundo e decidiu tornar-se uma freira budista. Viajou até Edo (atual Tóquio) em busca de um mestre zen, mas foi repetidamente rejeitada. O mestre Hakuo Dotai, embora reconhecendo sua sinceridade, disse que não podia aceitar sua aparência feminina, pois sua beleza distrairia os monges do monastério.
Em resposta, a jovem aqueceu um ferro e o pressionou contra o próprio rosto, desfigurando-se permanentemente. Depois, escreveu um poema nas costas de um espelho: “Para servir minha imperatriz, eu queimava incenso para perfumar minhas roupas requintadas. Agora, como uma mendiga sem lar, eu queimo meu rosto para entrar em um templo zen”.
A história brutal de determinação inspira diretamente a música “Porcelana“, uma das faixas mais conceituais do álbum, cantada parcialmente em japonês. Rosalía canta em japonês: “君に台無しにされる前に/ヤバい熱で向かんな/持って生まれた才能なの/持って生まれた才能なの”, em tradução livre: “Vou jogar fora minha beleza / Antes que você tenha a chance de arruiná-la / Você vai me achar louca?”
Em entrevista à Apple Music, Rosalía explicou sua fascinação: a história demonstra como o sacrifício extremo pode ser considerado loucura, mas também pode ser o caminho para alcançar o que se deseja. A música mistura palmas flamencas com cadências de rap japonês e uma orquestra sinfônica, criando um ritual sonoro que celebra a transformação através da destruição.
4. Rabia Al Adawiyyaa (713 D.C- 801 D.C)
Nascida em Basra, no atual Iraque, Rabia foi a quarta filha de uma família árabe muito pobre. Na entrevista com Zane Lowe para a Apple Music, Rosália revelou que sua música “La Yugular” foi inspirada em Al Adawiyya, que é amplamente considerada a primeira santa sufi do Islã.
Conhecida por fundar a doutrina do amor divino, a santa é lembrada por seu princípio orientador: amar a Deus por Ele mesmo, e não por medo ou desejo de recompensa. Para personificar essa filosofia, ela carregava fogo e água, simbolicamente buscando destruir tanto o Inferno quanto o Paraíso para que a devoção surgisse de um amor puro e altruísta. A inspiração na representante sufi é também um modo da cantora de honrar o conceito islâmico de uma fé sem limites, que pode ser traduzida em confiança e otimismo em todas as áreas da vida.
Na faixa, a artista canta em árabe: “من أجلك أدمَّر السماء، من أجلك أهدم الجحيم, فلا وعود ولا وعيد”, em tradução livre: “Para você, eu faria destruir os céus, por você eu demoliria o inferno, sem promessas e sem ameaças.” Tal como a santa sufi, a temática da canção expressa a espiritualidade da catalã, indo além de uma fé transacional e ligando as raízes andaluzas do flamenco às tradições espirituais sufistas.
5. Anandamayi Ma (1896- 1982)
Nascida Nirmala Sundari Devi em Bengala, Anandamayi Ma foi uma das grandes santas hindus do século XX, reverenciada como uma encarnação da deusa Durga. Nunca teve um guru, e afirmava que sua iluminação espiritual foi espontânea e auto-originada. Conhecida como “a flor mais perfeita que o solo da Índia produziu”, passou sua vida viajando pelo país, se conslidando como filósofa, santa, professora e mística.
A abordagem de Ma a morte era um tema principal de seus ensinamentos, e é o foco da última faixa de Lux. Quando faleceu em 1982, aos 86 anos, os seguidores da filósofa celebraram com flores e alegria em vez de tristeza. Seus rituais funerários foram cobertos de magnólias, transformando a despedida em uma celebração de sua vida. Esta visão revolucionária inspira diretamente “Magnolias“, onde Rosalía canta sobre seu próprio funeral imaginado: pedindo que joguem magnólias sobre ela e que façam uma festa em vez de sofrerem. A artista também reverencia a canção “Que Nadie Vaya A Llorar“, música de Manuel Molina sobre cantar em vez de chorar no dia da morte que tem tatuada nas costas.
6. Miriam (1400 A.C- 1274 A.C)
No podcast Popcast do jornal americano The New York Times, Rosalía falou sobre como usou a linguagem para expressar suas inspirações para certos aspectos do álbum, que é fortemente inspirado pela ideia de santas e pelas maneiras como elas são vistas em diferentes culturas. “No judaísmo, a figura mais próxima [de uma santa] é Miriam, uma profetisa, uma mulher que liderou e guiou um povo inteiro, além de ser muito rebelde”, reflete a cantora, compartilhando sua interpretação sobre a profetisa que ajudou a libertar os israelitas do Egito.
Miriam foi uma profetisa que aparece pela primeira vez no Livro do Êxodo, chamada de “Miriam, a Profetisa”. Irmã mais velha de Moisés e Aarão, Miriam desempenhou papel crucial na libertação dos judeus do Egito. Quando era criança, foi ela quem observou o bebê Moisés ser colocado no Nilo, protegendo-o da ordem do Faraó de afogar todos os meninos hebreus. Sua astúcia salvou não apenas seu irmão, mas o futuro libertador de todo um povo. Anos depois, após a travessia do Mar Vermelho, Miriam liderou as mulheres hebreias em canto, dança e tambores, tornando-se a primeira mulher na Bíblia a receber o título de profetisa e inaugurando uma tradição de performance e composição de canções e danças em Israel.
Miriam inspira diretamente “Novia Robot“, uma das faixas disponíveis apenas na versão física de Lux. A música apresenta Rosalía cantando parcialmente em hebraico: “noladti limrod / ve ani moredet lehivaled mechadash / im lachatz meyatser yahalomin / lama anachnu kulanu lo mavrikim”, em tradução livre: “Nasci para me rebelar / E me rebelo para nascer de novo / Se a pressão cria diamantes / Por que não estamos todos brilhando?”
7. Sun Bu’er (1119-1182)
A Mestra Sun Buer (ou Sun Bu’er) foi uma Taoísta chinêsa da linhagem Quanzhen, fundadora da linhagem taoísta da Pureza e tranqüilidade (清靜). Foi uma dos sete discípulos do taoista Wang Chongyang, conhecidos na China como “Os Sete Imortais”. Assim como Ryōnen, a chinêsa também destruiu sua face em sinal de dedicação ao ofício (nesse caso o ensino taoista).
Quando seu Mestre afirmou que se um de seus discípulos tivesse a determinação para viajar mil milhas até Luoyang aprenderia os mistérios mais profundos do universo, Sun estava determinada a viajar até o ensaino da alquimia. O Mestre Wang a advertiu que sua beleza a tornaria alvo da cobiça de malfeitores, proibindo-a de realizar esta jornada.
Determinada a se aprofundar em seus estudos do Tao, a mulher queimou seu rosto com oleo fervente. Prevendo que ela seria a discípula que viajaria a Luoyang, o Mestre ensinou tudo que sabia sobre a alquímia interna taoísta. A canção de Lux que faz referência à Bu’er também é “Novia Robot“, que tem trechos em chinês.
+++ LEIA MAIS: Rosalía revela que vive com TDAH e diz que isso ‘ajuda na criatividade’
+++ LEIA MAIS: Rosalía anuncia que virá ao Brasil para audição em 2025; saiba mais
+++ LEIA MAIS: A cantora pop que teve seu novo disco aprovado pelo Vaticano
+++ LEIA MAIS: ‘Arte pela Arte’: colaboradores de Rosalía refletem sobre ‘Lux’
O post 7 mulheres que inspiraram Rosalía na criação de Lux apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
